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Exercício da Memória

1.
O painel de Mário Vitória (obra institucional Tokyo 2020) é um convite à exercitação da memória. E também uma forma de homenagem a um povo messiânico, de dimensão universal, chamado Portugal. Recria um biombo da Arte Nanban, símbolo do relaciona- mento luso-nipónico, uma arte surgida e florescente no Japão na segunda metade do século XVI.
Os biombos eram semelhantes a um livro de imagens ou a uma banda dese- nhada. Contaram, de maneira assaz peculiar, a chegada dos portugueses ao país do sol nascente, o encontro e até choque de duas civilizações diferentes e quase opostas, que se apresentam, inesperadamente, frente a frente.

Nos biombos ficou registado o intercâmbio comercial e cultural, resultante daquele encontro. A sensibilidade requintada dos japoneses leva-os a tecer uma visão idílica das viagens dos visitantes, distante da dureza que as marcava. Simultaneamente expressam o contraste com os ‘bárbaros do sul’, caricatura- dos com os estranhos trajes usados, os narizes compridos e aquilinos, os traços inerentes às diferenças sociais, atónitos e maravilhados perante o exotismo do novo mundo encontrado, alegre, festivo, jovial, multicolorido. O ponto de vista oriental é crítico, mordaz, refinado e sagaz, do ocidental; mas ambos se interpe- netram e enriquecem num ambiente de convivência pacífica e de respeito.1

2.
Somos originários da Mesopotâmia; talvez não seja esta a designação apropriada, porquanto são muitos os rios, todos eles com águas caudalosas e férteis, em que fomos batizados e nos inundaram de messianismo. No bornal trouxemos o Código de Hamurábi e o Princípio do Talião, firmados no intuito de proteger os mais fracos dos mais fortes. E também o ensinamento de que a admiração do belo, elevado e estético é o veio da civilização.2

Ao passar por Jerusalém acalentamos a esperança de chegar aos vergéis do leite e do mel, que lá não havia. Conhecemos o Deus de Israel, as figuras bíblicas, os filhos de Abraão, os profetas, a Lei de Moisés, a justiça de Salomão. Ainda não tinha chegado o Messias e a promessa da ressurreição.3

Fomos até à Grécia, pátria de mitólogos, filósofos e vates criadores de Divin- dades e da Humanidade. Ensinaram-nos que a perda da memória acarreta a da consciência e leva à degradação em porcos. Tomámos boa nota da ficção de Homero na Odisseia. Não perdemos de vista Ulisses na sua errância em busca de Ítaca. Estivemos com ele na ilha de Ogígia; invejámos o romance com a capitosa Calipso, escutámos os seus lamentos e emocionámo-nos com as copiosas lágrimas de saudade, derramadas no areal da praia. E aplaudimos a recusa da tentação de prolongar o remanso amoroso e de faltar ao destino de cumprir a mortalidade, esgotando o campo do possível. Vimo-lo hesitar, refletir e tomar a decisão de prosseguir a viagem, de almejar uma vida bem-sucedida de mortal e afirmar a superioridade desta em relação a uma existência mal sucedida de putativo imortal. Por isso o acompanhámos e incitámos a não temer os deuses Bóreas e Éolo e os ventos e tempestades que estes desencadeariam.

Navegámos pelo Mediterrâneo e atingimos Roma. Aí ficámos o tempo sufi- ciente para adquirir novos olhares e ofícios. Aprendemos a elaborar o direito, a erguer a sua casa, a construir arcos de triunfo, estradas e pontes. E a afirmar a identidade, desenhando peixes nas pedras dos caminhos e nas areias dos desertos. Estávamos aptos para sair do mar estreito e fechado, e partir para outras paragens.

Chegámos a Portugal, inventámos mastros e velas para que as caravelas da inquietude, pudessem andar pelo mar aberto, imenso, infinito, incógnito e transcendental.

Não tínhamos essa competência, apenas a de cavar e lavrar. Mas, largámos os arados e charruas, descemos das montanhas e atamo-nos a mastros, lemes e remos. Num rufo assimilamos as técnicas e habilidades prometeicas, ador- mecidas dentro de nós. Para bússola tomamos o astrolábio da fé, a capacidade de fitar o céu e as estrelas, de invocar a proteção de Deus, dos vários nomes de Santa Maria e de todos os santos.

Entrámos no Oceano Atlântico como quem apalpa o terreno que pisa.
Cada viagem realizada fez-nos mais afoitos, encorajou-nos a alongar a distância, a enfrentar o desconhecido, a descobrir o mundo por achar. E isto tornou-se tão viciante que nem os naufrágios e as mortes nos fizeram parar. Ao invés, as mara- vilhas contadas pelos sobreviventes redobraram a vontade de prosseguir.

Quantas mães em vão rezaram, quantas viúvas e filhos desesperadamente choraram, quantas noivas puseram luto e ficaram por casar, quantas procissões se realizaram, quantos cadáveres a sepultura em ti encontraram, para que fosses nosso, oh mar!

Fomos além da dor, dobrámos o Bojador e todos os cabos do medo, da descon- fiança, das tormentas e da traição. Enfrentámos as fauces grotescas do Adamastor. E a ânsia e o atrevimento foram ganhando forma e ficando sem medida e tama- nho. Pela porta dos olhos a coragem e a ousadia entraram, sem qualquer freio, e tomaram posse da alma.

Diogo Cão saiu de Vila Real de Trás-Os-Montes e plantou padrões nas costas da Namíbia. A rota por ele desbravada foi seguida por Bartolomeu Dias, que nos conduziu ao ponto onde o Atlântico e o Índico travam árduo combate para fundir as águas. O segredo ficava desvendado: a via para a Índia estava achada. Vasco da Gama não tardou a percorrê-la. Começou então um tempo novo da Civilização e da Humanidade. A utopia da mundialização deu os primeiros passos, e logo amplos e firmes.

Bastava haver chegado à Índia para termos muito para contar e encantar! Mas as ordens e a missão eram precisas; não consentiam descanso. Afonso de Albuquerque foi delas rígido intérprete. Navegados os inamistosos mares arábicos e estabelecidos fortes e feitorias nos seus portos, o Odisseu lusitano levou-nos a Malaca. A partir daí, a viagem tinha que continuar para o sudeste e oriente asiático, para as Molucas e a Oceania. Muitos prolongaram a aventura para outras direções. E um tal Jorge Álvares, vindo da incógnita vila de Freixo de Espada à Cinta, alcança a China em 1513, um século antes que qualquer inglês arribasse naquelas costas! Não contentes com isso, as carracas com o pendão de Cristo bem visível chegam ao Japão, à ilha de Tanegashima, e entram na baía de Nagasáqui em 1543.

3.
Quanto o caminho andado, o mar percorrido, o sangue derramado e sonho perdido! Muitos tiros de canhão e espingarda foram disparados. Haveria outros jeitos? Cada época tem os seus costumes e preceitos. Assim, importa, proceder ao balanço do essencial e tentar sublimar o que, aos olhos de hoje, podia ter sido melhor e não sofrer o contágio do mal.

Os portugueses iniciaram a epopeia marítima, há mais de seiscentos anos. Na altura estavam longe de imaginar que os povos, com os quais iriam conta- tar, viriam um dia a exprimir no folclore indígena inúmeras manifestações do nosso. Contudo, foi o que sucedeu na África, Índia, Brasil, na Malásia

e nas ilhas da Indonésia!

Durante as longas travessias e a permanência nos ancoradoiros pelo mundo afora, os marinheiros lusitanos não dispunham de outro folguedo, a não ser o que conheciam: cantar e dançar como era costume nas localidades de origem, os jogos que praticavam, as festas que realizavam e lhes avivavam as saudades. Este sentimento tão português fazia-os arrancar, em noites de luar, gemidos pungentes das guitarras, entoando versos equivalentes a lamentos em relação à sorte, ao destino e fado da sua vida.

Sempre que entravam em contato com povos nativos, transmitiam-lhes o que sabiam. Deles apropriavam igualmente o que lhes era mostrado e aguçava a curiosidade. Isso é evidente nos objetos artísticos elaborados sob a influência japonesa, e na valiosa arte indo-portuguesa, prenhe de notável produção no domínio do sagrado. Sem esquecer a arquitetura, as formas e cores do património edificado.

Isto é, à miscigenação das criaturas acresceu a das culturas. Surgiu uma outra culinária, combinando e aumentando ingredientes e sabores. Surgiram novos falares: o crioulo, o patuá, o papiá kristáng. E também apareceram representa- ções folclóricas, natalinas, carnavalescas e juninas, festas, canções e músicas miscigenadas. O que comprova a peculiaridade da colonização portuguesa. Nenhum outro povo europeu conseguiu um tão intenso nível de interpenetração nas culturas e idiossincrasias dos povos com quem contactou.

Regista-se, pois, um incomensurável e positivo saldo civilizacional. As primeiras casas levantadas, nos locais onde os portugueses chegaram e se fixaram, foram as igrejas, os hospitais e as misericórdias, para cuidar do espírito e do corpo. Abertas a todos. As cidades foram dotadas de estruturas de organização e administração. A miscigenação foi fomentada para criar uma nova população, distinta da encontrada. Uma nova arte nasceu e floresceu. Animais e plantas são levados para outros lugares e dados a conhecer. Ocidente e oriente aproxi- mam-se e influenciam-se nas mezinhas e curas medicinais. E ficaram, como sinais da nossa passagem, inúmeras palavras: chá, café, pão… Por exemplo, os japoneses influenciaram a culinária portuguesa com os coentros e os portu- gueses a japonesa com a tempura.

4.
As navegações portuguesas continuam e concretizam o sentido da viagem simbólica da Humanidade, empreendida por Ulisses. O herói enfrenta perigos, dúvidas e agruras, resiste a ciladas e tramoias, tem dificuldade em encontrar o rumo, familiariza-se com o desconhecido, recebe auxílio e hospitalidade do estrangeiro, segue o seu caminho e alcança o destino sonhado e venturoso.

AnarrativadeHomeropropõeumaviaeantecipaametaqueaHumanidade e os seus membros devem observar e visar. A realização da proposta é conseguida por meio de extraordinários desempenhos corporais, operados por um ânimo indomável. Odisseu representa o modelo do Homem de saber ampliado e expe- rimentado, que, no final da errância, tem muito para narrar e entusiasmar.

Luís de Camões ressuscita a visão homérica. Os navegadores lusos são a concre- tização, em carne e osso, do mito de Ulisses. A errância lusitana suplanta desafios e temores superiores, nunca até então encarados pelo engenho humano. O que nos autoriza a dizer que ela recua a um tempo anterior ao de Ulisses; recria o imaginário, as figuras e os feitos de Prometeu e Hércules. Os portugue- ses deixam de ser lavradores e tornam-se marinheiros e titãs que descobrem e ligam os mares, inaugurando assim uma nova era de invenção e perceção do mundo.

5.
É de mitos e ideais e da sua importância que trata a obra de Mário Vitória. Ela oferece-nos um conjunto de narrativas, artisticamente tecidas pela aprimo- rada mão ética e estética de um Aedo que mergulha no baú da história e a traz colorida e radiosa para a nossa era crepuscular, tão carecida de matar a fome e sede de maravilhamento, do espiritual e do transcendente. Sejamos gratos! Ainda há quem porfie em semear contos e lendas neste mundo árido, necessi- tado de confabuladores de enredos e sonhos. Ah, como precisamos de pintar o céu nos olhos, de os encher e clarear com a presença das estrelas distantes, para não nos afundarmos no pasmo e na tristeza de dias convertidos em noites!

É este o compromisso assumido por Mário Vitória. Ele é notavelmente consumado pela policromia das imagens e dos cenários, apostados em acordar e revestir a memória com as roupagens do imaginário, da alegria dionisíaca, da Paideia homérica, dos princípios e valores ínsitos no mito dos Argonautas, nos reptos de Dédalo e no destemor de Ícaro. A ementa não podia deixar de fora a meta da superação e sublimação pelo sacrifício, a arte relacional, inspirada na inteligência e bondade de Quíron, o fado do Atleta (e do Ser Humano) expres- so no mito de Sísifo, a ansiedade de conseguir abraçar a bem-amada Penélope.

O portal de Mário Vitória celebra o cenário olímpico, reservado aos deuses e deusas, e almejado também por heróis mediante façanhas que acrescentam e afeiçoam o rosto da Humanidade.

Ele lembra-nos Prometeu, acorrentado de várias maneiras, o arrojo que cometeu e o castigo que lhe foi aplicado por Zeus. Muitos não têm ciência de que o filho de Jápeto roubou aos deuses os atributos e dons divinos, para os entregar aos entes desvalidos, criados pelo irmão Epimeteu. Ignoram que, devido a esse feito desmedido e generoso, foi aposto à mercê de abutres; estes, todos os dias, roem-lhe as entranhas. Não sabem que os pensadores da Modernidade se inspiraram no Titã para estabelecer o alvo da educação e formação: desacorren- tar os pés, as mãos, o coração, a razão, o espírito, o entendimento, o ânimo e a vontade dos indivíduos, para poderem ascender a Seres Humanos de verdade.

O fogo prometeico é indispensável a toda a ação humana. Porém parece estar em vias de se extinguir. Não é mais Prometeu quem pontifica na universidade e nas instâncias que deviam iluminar a Humanidade. Está nelas crucificado pelos cabos-de-ordem do senso comum e do conformismo, a mando dos inimigos do pensamento crítico e divergente. Os seus seguidores são poucos e sofrem o mesmo destino. Quanta falta faz um Hércules como o de outrora!

Mas já não há heróis daquele teor; a imaginação encontra-se domesticada, a boca amordaçada e a coragem algemada. Um dia, a luz do mito renascerá, fulgurante.

Seguimos em viagem, carregados de contradições, metas e carências que indicam o quanto há e sempre haverá em nós por fazer.

Porfiaremos em ser um edifício em construção, inacabado e inconclusivo. Temos que prosseguir com a paixão, o entusiasmo e o idealismo que iluminaram a caminhada até aqui e habitam dentro de nós a insuflar-nos a alma e a ditar-nos as palavras e os atos.

A viagem para uma nova ordem moral tem que contornar o vento do Norte que gela o espírito humano, e rumar mais ao Sul. À procura da criatividade e musicalidade, da amizade e compreensão, da tolerância e empatia, da justiça e inclusão, da harmonia e solidariedade, de um sistema ético que torne viável a nossa Casa Comum.

Prolongamos a viagem iniciada – e nunca terminada – há milhares de anos pelo nosso antepassado, que, saindo de um remoto lugar situado talvez na África, povoou este nosso Planeta ainda Azul. Afinal somos hoje tão diferentes
e também tão iguais.

Essa viagem cumpre-se pelas duras veredas e apertadas trilhas que levam a um Mundo quiçá longínquo. O sonho impele-nos a continuar a viagem. É nosso dever embarcar. E navegar no rumo da aventura, com o sopro do conten- tamento e descontentamento a dar energia às velas da alma.

Trazemos na testa o ferrete de Homo Viator, condenado a peregrinar em diáspo- ra e errância permanentes, em trânsito ininterrupto. Estamos e somos em viagem.

O olhar para trás é um modo de fitar o futuro. Assim o disse – e bem – António Sérgio: Fadados à sina de transpor limites, tivemos um carácter universalista pela nossa ação no mundo físico: está na índole da nossa história que o tenhamos também no mundo moral. Só é profundamente português o que for como tal um cidadão do mundo.

Ora, ser cidadão universal implica consciência ética e estética acerca do decurso do mundo. Mais um mito?! A conjuntura não lhe pôs fim; ele renasce e renascerá cada vez mais, qual Fénix emergente das cinzas, para continuar a irradiar um feixe de luz.

Para astrolábio dos nossos passos tomemos o diagnóstico e o fogo do espírito do Padre António Vieira: Sem sair (de Portugal) ninguém pode ser grande (…) Nascer pequeno, e morrer grande, é chegar a ser homem. Por isso nos deu Deus tão pouca terra para o nascimento, e tantas terras para a sepultura. Para nascer, pouca terra: para morrer, toda a terra: para nascer, Portugal: para morrer, o mundo.4

Assim sucedeu com o Padre Vieira. Faleceu no dia 18 de julho de 1697, em Salvador da Bahia, ou seja, no mundo. Tinha 89 anos e uma vida cheia de imortalidade.

6.
É impossível uma síntese suficiente para levantar o véu da riqueza simbólica que perfaz a peça cerzida por Mário Vitória, um ourives de histórias, emoções e memórias configuradas pelos traços da imaginação. As diferentes parcelas do todo assemelham-se aos andamentos de uma composição musical que não cessa de inundar e dulcificar os nossos ouvidos com a harmonia de notas e tons maviosos. Para esse fim convergem panoramas leves e alados, que edificam uma genuína catedral gótica, dotada de vitrais esplendorosos. Deste jeito, somos convidados a voar para as alturas da magnificência e sublimidade.

Sublinhemos, a obra é ́posicionada’ e ‘situada’. Toma posições num tempo murado e sitiado por silêncios e negações. Vale por si mesma; dispensa carta de recomendação e salvo-conduto. Circula com o à-vontade próprio de quem é confiável e respeitável. Constitui um mosaico de lembranças primorosas; é realmente, parafraseando Jorge Luís Borges, “uma extensão da memória e da imaginação”. Instiga os caminhantes a andar caminhos, a descobrir expres- sões e ocasiões da sabedoria e felicidade.

O palco é o país dos próximos Jogos Olímpicos; contudo o alcance vai mais além, visando instituir padrões e balizas no mapa mundi da interpretação e configuração do sentido da existência. As representações, densas de acuidade e sensibilidade poética, adentram-nos a alma, derramando um intenso clarão, proveniente do casamento venturoso das habilidades do pintor e das inquietudes e perguntas do pensador. Este parece ser o que mais dá a cara e põe de fora o pescoço e o nariz; mas é aquele que o espicaça.

7.
Poderá causar estranheza a associação do desporto (Jogos de Tóquio) e da pintura. São dois modos de expressão distintos; porém, perseguem a mesma finalidade: alargar os limites da sensibilidade e arrancar do íntimo, e da aridez, sentimentos, sonhos, desejos, angústias, aspirações que se materializam em atos simbólicos, sejam estes imagens ou gestos. Na pintura e no desporto caminha- -se para a criação, formação, exaltação, liberdade, magnificência e excelsitude do corpo e do intelecto. Esgota-se o campo do possível e reduz-se o impossível ao nada, com a ajuda e posse de uma dada tecnicidade.

Ser pintor não é só pintar quadros; é descobrir e propor novas maneiras de viver. O mesmo faz o desportista. Bem vistas as coisas, pintores e desportistas são românticos. Por causa disso não têm vida fácil; sofrem as dores próprias
e as alheias, tornando a existência ainda mais difícil do que é. Creio até que nos roubam a ilusão de que a vida pode ser feliz; ou então sugerem-nos que

a felicidade se atinge pela via da maceração e renúncia, da sujeição a exigên- cias e normas desafiantes do apuramento do estilo e do Ser. Que talvez assim expulsemos as hidras e serpentes, os medos e traumas, as angústias e circunstâncias que nos amargam o dia-a-dia. Porventura ainda, é através desta purga que o corpo e a alma ficam livres e soltos para levantar voo para outra galáxia, para outra consciência, para outra forma, para as alturas da ética e estética. Porque a modalidade de dizer e cumprir a vida rege-se pela medida escolhida; e é esta que possui e determina quem a diz e configura.

No fundo, pintura e desporto são expressão exemplar de uma dialética de contrários, do descontentamento e contentamento, do espartano e hedonista; um aviso de que é ilusório tentar chegar à plenitude e autenticidade da vida, sem ser pela observância de obrigações, princípios e ideais.

Eis nisto confirmada a convergência de dois tipos de ação aparentemente diferentes, mas afinal tão sintonizados um com o outro. O mito é o mesmo, o agonismo preside a ambos, a coroa de louros tem o mesmo preço, ambos comem o mesmo pão, bebem da mesma taça e saboreiam o mesmo vinho. Na tela abúlica e passiva – que se coloca à disposição do pincel – e no corpo dócil e plástico – que se submete aos métodos da exercitação, treino e compe- tição – ficam impressos arrebatamentos, devaneios e ousadias da imaginação e ordens da vontade. Como manifestações e sequelas da vida que a cada um, pintor e desportista, toca viver.

O desporto e a pintura convidam-nos a olhar para dentro, a conhecermo-nos e a pôr termo ao descaso que levam à desumanização. Ambos surgem, de mãos dadas, aos meus olhos quase cansados e quase felizes e purificados, de tanto procurar e esperar que a paixão perdure e a felicidade aconteça.

8.
Inegavelmente, o mundo mudou; melhor dizendo, foi mudado, ele não muda espontaneamente, mas como resultado da ação intencional dos que nele intervêm. A mudança para melhor, em diversos parâmetros, é acompanhada de não poucas desilusões e frustrações, que trazem de volta a necessidade de despertar e reacender mitos e utopias. Continuam por inventar remédios para as dores mudas; e estas não cessam de alastrar, imersas na lava de liquefação da Modernidade, cujo legado julgávamos sólido e duradoiro. Os ventos do efé- mero, do superficial e volátil, da secura e desertificação sopram descontrolados e inclementes de todos os lados, como se o nosso mundo fosse uma Caixa de Pandora totalmente esburacada e sem qualquer possibilidade de instalar fechaduras nas portas e janelas.

A conclusão é óbvia: a tentativa de abater os mitos revela-se inglória. Eles são perenes e indestrutíveis; a sociedade, que os tenta destruir, é a mesma que os renova. Se dúvidas houvesse, bastaria observar a contemporaneidade, obcecada em desfazer-se dos referenciais de antanho. Ela esfalfa-se para impor o mito científico-tecnológico ou tecnocrático; paradoxalmente, ao mesmo tempo, reconstrói o capital mitológico de outrora, por força da enorme crise de valores e da fome de sentido da vida que engendra e agudiza.

É neste ponto que a obra de Mário Vitória fura a penumbra e entra em cena. Constitui um tratado de posicionamentos contra a subversão da memória; melhor dizendo, introduz a memória no nosso tempo, para que não sejamos navegadores sem a bússola da consciência. Por isso, cuida de nos falar das virtualidades do passado, queimadas pela voracidade dos fogos desta era demencial. Lembra-nos que o Homem português e o universal apenas são compreensíveis na perspetiva de uma aventura que se desenrola e constitui pouco a pouco. Adotando o mandamento de cuidar afincadamente do ser inconcluso e inacabado (Octávio Paz, 1914-1998), de procurar dar forma sempre mais aprimorada e renovada à plasticidade da nossa arquitetura exterior e interior, de mostrar por fora a estatura e o brilho da pessoa de dentro. Correspondendo à postura de Fernando Pessoa: Sou definitivamente contra o definido, porque o definido é o bastante e o bastante não basta.

9.
O artefacto de Mário Vitória, repete-se, celebra a chegada dos portugueses ao Japão, tomando como pretexto os Jogos Olímpicos de Tóquio. Casa a gesta lusitana com o ideal agonista dos gregos. Este funda-se na obrigação de beirar o impossível, de contribuir para a condução e salvação da vida ‘correta’ e ‘boa’ de seres mortais, mas inquietos, mediante a realização de bravuras incomuns, ‘excessivas’ e extraordinárias, ‘artísticas’ e virtuosas, merecedoras de admiração, apreço, respeito e recordação dos outros, inclusive para além da existência.

Os Lusíadas, de Luís de Camões, bebem na mesma fonte em que bebeu Píndaro, o poeta das Odes Olímpicas. Evocam as pessoas que, por feitos valorosos, se libertam da lei da morte. Ambos os vates da palavra estão fundidos em Mário Vitória, um vate da pintura.

A máxima, prescrita por Píndaro – o atleta é aquele que se compraz com
o esforço e o risco – é constituinte de nós, expressão do nosso ser. Suportamos o peso deste desafio e destino. Os humanos, porque somos e nos sabemos frágeis, transitórios e sujeitos à finitude, ansiamos e procuramos alcançar
e beber a taça do mundo. Os deuses, porque são eternos e omnipotentes, não necessitam de realizar proezas que concitem a admiração dos semelhantes e projetem o seu nome para a eternidade, mas não conseguem deixar de sentir nostalgia daquela taça. Por isso Homero, na Ilíada, imagina-os a competir entre si, fazendo apostas acerca do vencedor, na corrida de carros celebrada frente a Troia, durante as exéquias de Pátroclo.

Os humanos praticam a única coisa que os Deuses não se atrevem a fazer: arriscar-se ao fracasso, ao insucesso, à dúvida, à tensão, desilusão e derrota. Eles somente sabem e podem ganhar. Nós nascemos predestinados a assumir o risco, a cumprir a sina de ganhar algumas vezes, de perder muitas outras, e de ter que aprender a perder e suportar a derrota, sem perder a face, a deter- minação e o gosto de insistir, treinar e competir, de intentar e ousar, de melhorar e progredir. Chama-se a isto vencer, viver e existir, conferir sentido à existência.

Será isto pouco? Não é o suficiente; todavia, representa o máximo que nos é permitido alcançar. Não temos concessão para mais. O prontuário de receitas, para realizar a vida num plano superior, por nossa conta, com a fulgurância das artes, das ciências e das ‘técnicas’ (á luz do significado etimológico que o termo grego ‘techné’ encerra), esse receituário jamais o obteremos em quantidade bastante.

Os deuses são nossos rivais; somos irremediáveis concorrentes. A felicidade deles parece implicar a nossa desgraça; e a nós faltam-nos a audácia e a determinação de Prometeu para escalar o céu e usurpar aquilo que é propriedade divina. No entanto, se renunciarmos a enfrentar esta instigação, de triunfo impossível, condenamo-nos a ficar aprisionados no Labirinto de Dédalo e acabar nas goelas do insaciável Minotauro. É contra esta desdita que Mário Vitória nos alerta; propõe o revigoramento do teor mítico do Homo Viator e do Homo Performator, imanente ao desporto, investindo nele a função salvífica de Teseu.

10.
Mas… serve para alguma coisa a evocação do passado? Bem, diz o escritor britânico Leslie Poles Hartley (1895-1972), o passado é um país distante
e estranho, onde se fazem muitas coisas de forma diferente. Por outras palavras, a recordação do passado aviva e disponibiliza a possibilidade de escolhas, sobretudo de natureza ética.

Sopesemos a tese de George Orwell (1903-1950): Quem controla o passado dirige o futuro. Quem dirige o futuro conquista o passado.5 E um testemunho semelhante do Padre António Vieira: Os exemplos dos tempos passados costu- mam ser as regras e documentos para os presentes e futuros.

O facto de vivermos no presente não nos obriga a declarar que ele é fascinante e o futuro será ainda melhor; como se sabe, a surpresa é a essência da história. O olhar retrospetivo contém potencialidades não negligenciáveis. O passado não é um fundo arqueológico morto; possui instrumentais para ajudar a perceber e equacionar os conflitos do presente, oferece exemplos e modos de ação, quer para comparações e opções, quer para evitar comédias que acabam em tragédias. Este aspeto leva não pouca gente a encarar o passado como incomodativo e maçador.

As lembranças do passado abanam a folhagem de identidades fugazes, de ‘novidades’ e modas sem raízes. Colocam limites a quem quer ter todo o espaço aberto somente para ganhos e vantagens, sem qualquer escrúpulo ou entrave. São luzes vermelhas: o saber e a experiência, adquiridos com a vida e trabalho árduos, em vez da boçalidade e ignorância agressivas, a virtude em vez da frivo- lidade e sordidez, o dever, a exigência e a normatividade em vez do facilitismo e laxismo, a honradez e verticalidade em vez da fraude e debilidade do carácter, a modéstia e responsabilidade em vez da vaidade e leviandade, o respeito em vez da ordinarice, a dignidade em vez da indecência, a compaixão em vez da indiferença, o altruísmo em vez do desdém, a memória seletiva em vez das trevas do esquecimento, a prudência em vez do voluntarismo, o parar para pensar em vez do imediatismo, a verdade em vez da falsidade, da esperteza e do vale-tudo.6

Quando nos perdemos e tresmalhamos nos desatinos de uma sociedade noto- riamente desorientada, a alternativa é ir ao encontro dos caminhos abertos pelo passado. A viagem conduz à criteriosa avaliação e desagua, por isso, em balanços e inquietudes. Donde vimos? Quais os caminhos percorridos? Para onde e como nos levam? Para onde queremos caminhar?

Com isto pretendo enfatizar que há na peça de Mário Vitória uma apurada visão do passado e das suas forças motrizes, suscetível de regenerar o presente e de gerar um futuro frutificado pelo domínio atualizado e inovador do pensa- mento, dos conceitos, noções, princípios, ideais e valores dos tempos idos.

Tal compromisso intima a retomar as esperanças, exaltações e promessas frustradas, a projetar o espírito que as iluminava. Requer-se a candeia pers- crutadora de Diógenes.

Passados tantos séculos, é curial olhar para o ideal desportivo dos gregos com as lentes aumentativas de Píndaro: Olímpia, mãe dos jogos de áureas coroas, senhora da verdade. E igualmente admirar a luta eterna pelo espírito de liberdade, expresso nos versos sublimes do poeta Lord Byron (1788-1824):

As montanhas olham para a Maratona
E Maratona olha para o mar;
E ali meditando uma hora sozinho,
Sonhei que a Grécia poderia ser ainda livre; Porque ali de pé sobre o túmulo dos persas Não me pude julgar um escravo.

11.
É disto que Mário Vitória trata. Oferece-nos a encenação gráfica do incitamento de Ulisses aos seus marinheiros, durante uma inclemente tempestade: Rema forte comigo, valente companheiro! O vento, que nos açoita o rosto, é o mesmo que impulsiona as nossas velas até Ítaca. A chuva, que se crava no nosso corpo como dardos afiados, é a mesma que disfrutamos nos areais escaldantes das praias. Rema forte! Se fraquejarem as forças com as quais, na juventude, movíamos os céus e a terra, serão os nossos heroicos corações que nos levarão até à grande Ítaca.

As naus lusitanas não somente navegaram com esperança, otimismo e valentia; também conseguiram chegar a Ítaca, entrar na baía de Nagasáqui, para dar início a uma era em que a novidade e a curiosidade vencem a desconfiança e o receio, e lançam sementes de convivialidade, familiaridade e proximidade.

Inspiremo-nos nesta mensagem. Colhamos nela a determinação de seguir em frente. O ânimo de quem não se sujeita à fealdade desta hora é igual ao que emana do labor e fulgor estético de Mário Vitória, nosso abnegado e corajoso companheiro de jornada, resistente às duras provas e fustigações da cega incompreensão. Cumpre-nos, pois, reverenciá-lo com gratidão e corresponder- -lhe, tanto quanto possível, com a adequada modalidade da nossa ação.

Fomos inconformados, interrogativos no passado; temos que o ser agora e no futuro. Assumamos a nossa parte no descobrimento da idealidade, tendo

em boa conta o juízo de José Saramago: Somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos. Sem memória não existimos, sem responsa- bilidade talvez não mereçamos existir.

Não fiquemos paralisados diante de factos absurdos e irrazoáveis, por mais inevitáveis que pareçam! Podemos viver numa sociedade sem causas e utopias? Sim, podemos! Porém, não é lícito chamar a isso viver. Eis o ensinamento colhido na viagem que Mário Vitória nos leva a fazer ao passado!

12.
Jamais conseguiremos desvendar, na íntegra, o mistério contido nas peregrinações marítimas dos lusitanos. Ele prosseguirá, inteiro e inspirador, até ao fim, por- quanto, disse-o Albert Einstein, deste jeito eloquente: o mistério é a coisa mais bela que podemos experimentar. É a fonte de toda a arte e ciência verdadeiras.

O mito é criador; é o mistério mais alto que pode obrar alguém. Cria-nos a nós, o que somos, o nosso modo de existir e ser. Comprova a ‘utilidade’ das ‘inutilidades’.

O mito é um meio de atuar sobre a realidade; um ingrediente indispensável a toda a cultura. Eis porque nunca se vive sem mitos. Por conseguinte a pergunta, que sempre pede formulação e resposta, é esta: Qual é o mito em que vivemos?

Estamos enredados no impasse: a impossibilidade racional de crer não elimina a necessidade espiritual e existencial da crença. Mesmo que não saibamos ao certo, temos precisão de algo mais para além do que vemos. Sempre haverá um além, que desafia a nossa ignorância infinita e desconjunta o nosso saber finito.

Precisamos de crença profunda na ‘impossibilidade’, na ‘acontecibilidade’ do impossível, no Poder-Ser, na exposição ativa ao futuro contra o presente, na infinitude espiritual, ética, estética e moral da pessoa (um Ser espiritual de infinita autopoiesis / autocriação), que infinitamente se projeta e busca o excesso infinito sobre a sua finitude. Precisamos da mobilização práxica deste espírito, da negação de que o sujeito humano está vocacionado ou predestinado para algo ‘natural’.

Creio não cometer exagero, se afirmar que o painel de Mário Vitória nos convida para superar o pessimismo e a nostalgia, e aderir à espera ativa e alegre.
Para a sublimação da ‘fragilidade’ e a compreensão de que esta nos salva. Para participarmos no ‘jogo humano’ e lusitano: o impossível é nada, somente existe para poder ser ultrapassado. A ‘messianicidade’ é um curso de água subterrâ- neo que atravessa toda a história e reduz a cacos a impossibilidade. Ademais, dá visibilidade ao mito do ‘quinto império’ (Padre Vieira e Fernando Pessoa), não das armas, mas do espírito (santo e universal)!

O conjunto da tapeçaria pictórica tem um fio comum. A sua tessitura congrega a abordagem histórica com o fundo mitológico e filosófico, para nos ajudar a ver melhor o presente. No final, ficamos convertidos em janela aberta para uma instigante paisagem. Isto é, a leitura desperta-nos a vontade para ir além do que está exposto na superfície. Forma-se, na nossa alma aprendiz, a apetência e atração pela substância. Acontece o milagre da mudez passar a falar, a surdez a responder, a cegueira a guiar, a morte a viver.

Sim, a contemplação da criação de Mário Vitória ilumina a nossa definição: estamos na vida em trânsito, somos estivadores: o trabalho e sentido da nossa viagem de Homo Viator é carregar a beleza, levá-la do lado onde ela existe para o lado onde faz falta.

Qual o fundamento para desempenhar esta tarefa? A beleza conserta-nos; não nos torna perfeitos, mas o convívio com ela pode fazer de nós sujeitos amáveis e graciosos, ‘artífices’ da vida.

Somos, e não podemos deixar de ser, animais ‘transgressores’ e ‘transcendentes’. De ir atrás de ‘ideais’, de os seguir na caminhada que conduz a um territó- rio inexplorado e não transitado. Se não agirmos assim, desperdiçamos as nossas vidas.

Só viveremos como humanos, se acolhermos, cultivarmos, criarmos e recriar- mos as artes do aprimoramento da nossa condição inconclusa. Nunca as esgotaremos, nem elas jamais deixarão de nos formar e incentivar a buscar o intemporal, o infinito, o acima da nossa configuração concreta; a lutar contra os limites e o impossível, sem possibilidade de vencer satisfatoriamente essa luta, porque morremos inacabados.

Nunca atingiremos a arte, a beleza, a perfeição, a ética e a estética suficientes. Serão sempre um ‘ainda não’ alcançado. Logo, obrigamo-nos a tentar formar a consciência da necessidade de visar esse alvo, ao longo de toda a existência.

13.
Nesta conjuntura de confusão e desilusão, em que tanto nos faltam a clari- vidência e o fulgor do sonho e da imaginação.

Nesta era de trevas brancas, em que a tentação de parar e desistir deve ser um aguilhão para ressuscitar e prosseguir. E em que a incerteza só autoriza a renúncia à fraqueza.

Nesta hora de amargura, onde quem nos atraiçoa e intenta derrubar acorda e renova a nossa determinação para recomeçar. E urge soltar o NÃO como brado da indignação.

Nestes dias de balanço, onde o tempo passado é património acumulado. Nesta antecâmara de guerra e morte geral, onde ninguém se salva, se o sorriso e a sorte não forem partilha à escala global.

Oh, artes performativas, eu vos saúdo e quero imensamente bem, porque nos revelais tudo – mau e bom – o que a gente é e não é, tem e não tem! Sois o Ser cantante contra o tédio asfixiante.

Oh, Prometeu sacrificado, quanta falta faz um Hércules corajoso e desassombrado!

Oh, mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal! Deste-nos a missão, foste a nossa estrada. Fizeste-nos barcos da saudade universal e imortal. Vamos continuar o caminho, cumprir o destino. Oh, mar sagrado, és o nosso chão, és o nosso o fado!


1 O nome ‘Nanban’ vem de ‘Naban-jin’ ou ‘bárbaros do sul’, termo com que os japoneses apelidaram os portugueses, os primeiros europeus a chegar e conhecer fisicamente o Japão.

2 O Código de Hamurábi (rei babilónico) é um monumento monolítico, talhado na pedra, pro- vavelmente em 1772 a.C.; contém 282 leis em 3 600 linhas. Marcado pelo Princípio do Talião (‘olho por olho, dente por dente’), o código determina que a pena seja proporcional à ofensa.

3 A Lei de Moisés (século XIV-Século XIII a.C.), também conhecida por Os Dez Mandamentos, é um conjunto de leis formado por ordens e proibições, sucedâneas e idênticas às de civilizações anteriores e coevas. O imperativo ‘Não matarás…’ e outros afins continuam a ressoar na nossa consciência, prenhes de atualidade.

4 Sermão de Santo António, pregado na Igreja de Santo António dos Portugueses, de Roma, em 1670.

5 Escrito na Pedra, jornal Público, p. 45, 26.01.2017

6 José Pacheco Pereira, Mas qual é o mal do passado? JornalPúblico, p.44, 9 de dezembro de 2017.

 

 

Jorge Olímpio Bento, junho 2022