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O muscinário de Mário Vitória

No final do século XIX surgiu a moda de criar colecções vivas de musgos em jardins ou quintais, incluindo jardins botânicos. Ficaram conhecidas por muscinários.  Mário Vitória recuperou essa tradição e aqui nos apresenta o seu muscinário.

Ao longo do tempo variaram os gostos sobre os diferentes tipos de musgos. E também os seus usos. Nestas primeiras décadas do século XXI estão a ficar na moda os musgos ruderais (do latim: rudus, ruderis, ‘entulho’). São os musgos que crescem em zonas urbanas degradadas, com ruas mal asfaltadas e bermas malcuidadas, depósitos de entulho, aterros, casas ou barracos com paredes fendidas e telhados à beira de ruína. Os musgos ruderais são um sinal de vida no meio da desolação, são andorinhas estáticas a anunciar a primavera no meio da invernia dos tempos. Têm muitas histórias para contar sobre tudo aquilo que cobrem, mas a sua linguagem deixou há muito de ser entendida pelos humanos. São constantemente pisados, mas sempre recuperam. Quem os entende melhor são as crianças que brincam nos lugares ruderalizados às escondidas dos pais. E que contadores maravilhosos de histórias eles são! Além das crianças, só os viciados em erva muscinária (uma multidão invisível porque só usa o SIS, serviço íntimo de saúde) e os colecionadores de ausências lhes dão alguma atenção. Estes últimos são preciosos porque são muito raros. É que um colecionador muscinário tem de aprender a língua dos musgos e traduzir o que ouve em linguagem que os humanos ignorantes entendam. É um tradutor intercultural muito difícil de encontrar precisamente porque a cultura da natureza é incomensurável com a natureza da cultura.

Toda a minha vida estudei áreas urbanas ruderalizadas. O meu primeiro trabalho como sociólogo foi realizado numa dessas áreas, uma favela do Rio de Janeiro. Vi lá muito musgo e confesso que muitas vezes me deitei nele para descansar e saborear uma cerveja. Mas nunca ouvi nada. E se ouvi certamente confundi o que ouvi com o barulho dos clientes do bar ou com o alvoroço das crianças a brincar no lixo. Além disso, em toda a minha vida nunca encontrei um colecionador de musgos. Como me interesso pelo que não existe, um dia perguntei num museu se havia alguma coleção de musgos. Perplexa, a funcionária disse que não sabia nem imaginava tal coisa. Pediu-me um minuto, foi dentro consultar alguém e voltou acompanhada pelo director e um segurança. O director, com voz austera, convidou-me a sair do museu e pediu ao segurança que me conduzisse até à porta. Não quis ofender ninguém, mas talvez eu tenha parecido aos olhos do director uma pessoa menos aparafusado da cabeça do que é costume nesta sociedade de parafusos mentais.

Em face desta história, que conto pela primeira vez e temeroso que me entendam mal, pode imaginar-se a minha alegria ao encontrar o Mário Vitória, o único colecionador de musgos que conheci em toda a minha vida! Esta alegria tem algo de egoísta porque a existência do Mário Vitória mostra que eu não estava doido quando interpelei a funcionária do museu. Ela era apenas musgodeficiente. E o museu também.

A impressionante coleção do Mário Vitória tem outra virtualidade. É que nos tempos pandemicamente doentios que vivemos, a coleção é acima de tudo um imenso livro de receitas, um manual de autoajuda, tal a riqueza dos conselhos e utilidades que nela encontramos.

No passado, o musgo foi utilizado para proteger os humanos das agruras do clima e criar o conforto possível. Usos tão diversos como confeccionar camas e almofadas, tapar fendas, criar isolamento, limpar os peixes antes de os secar, assar carne em fogo lento e até fazer pão em períodos de fome.  O musgo de Mário Vitória recupera essa tradição, mas amplia incontidamente as suas possibilidades de uso, as suas virtualidades curativas. O musgo de Mário Vitória pode ser usado para criar imunidade contra  vírus conhecidos e desconhecidos, sarar as feridas da natureza e atenuar as dores do universo, gritar em silêncio do alto de um buraco depressivo, visitar um cemitério às horas mortas, as únicas em que o cemitério está vivo, fazer desenhos para as crianças por serem as únicas que os levam a sério,  fruir uma alegria por mais trivial para odiar tudo o resto, tomar a decisão definitiva de procrastinar, cozinhar a primavera em restaurantes de inverno, falar com a natureza sem a insultar,  decretar a quarentena da tristeza e ir para a rua passear a alegria, ousando não usar trela nem apanhar o cocó, recitar um poema para uma assembleia de pinheiros sem máscara nem distância social, pedir a Santo Eustáquio que não nos deixe desistir e a São Cristóvão que nos carregue aos ombros da imunidade, mesmo sabendo que somos  pesados e não somos filhos de ninguém importante,  utilizar prazerosamente os restos do que ainda nos resta, ouvir com muita atenção a última lição da natureza, pôr os óculos de ver ruínas-sementes, venerar as virgens que dão à luz  entes mais duradouros que nós, como pedras floridas, habitar árvores com escadas interiores que conduzem à infância.

Não há propriamente uma bula que nos guie no modo de usar. Temos de nos limitar à prova testemunhal. Eu tenho usado em profundo silêncio e recolhimento. Como vivemos em unidades de descuido intensivo, qualquer mínima ventilação permite respirar melhor. No meu caso as melhoras foram rápidas e consistentes.

Em Quintela, em recolhimento muscinário, em 10 de novembro de 2020.

Boaventura de Sousa Santos, dezembro 2020